A arte de pintar: da pré-história até a pintura gótica


A pintura na pré-história

Caverna de Lascaux - França

         Os primeiros registros que temos sobre a pintura de nossos ancestrais são as pinturas rupestres. Rupestre significa relativo a rocha, ou seja, naquele período as pinturas eram realizadas nas pedregosas paredes das cavernas. Eram feitas por nômades, caçadores ou pescadores, e representavam animais e cenas do cotidiano. Para isso, nossos ancestrais utilizavam substâncias minerais dissolvidas em água ou em gordura animal ou vegetal. A tinta era aplicada com as mãos ou com pincéis rudimentares e também soprada por meio de canudos. Consideramos a pintura rupestre como figurativa e realista.

         Sabemos que a Pré-história é assim chamada por indicar um intervalo de tempo do qual não temos registros escritos. Desse modo, as pinturas rupestres são importantes documentos para a pesquisa, indicando vestígios de como viviam os seres humanos naquela época. A Pré-história é dividida em duas partes: Idade da Pedra Lascada (Paleolítica) e Idade da Pedra Polida (Neolítica). As pinturas encontradas até hoje começam a aparecer no período mais avançado da Idade da Pedra Lascada, conhecido como Paleolítico Superior. 

         No período Neolítico, o ser humano se tornou sedentário e começou a praticar a agricultura. Isso trouxe mudanças radicais na forma como nossos ancestrais concebiam o mundo. Tudo se transforma: os hábitos, a religião e a arte. A pintura se tornou geometrizadora, tendendo à abstração e ao simbolismo, o que refletia a forte influência religiosa.

Arte Neolítica - "Pinturas Bradshaw " - Encontradas na Austrália


Pintura Egípcia

         Avançando no tempo, chegamos a pintura desenvolvida pelo povo egípcio. O estilo egípcio durou de três a quatro mil anos e tem como traço marcante uma disposição das figuras retratadas segundo o que se convencionou chamar Lei da Frontalidade


         Essa lei determina a seguinte postura para as figuras retratadas: rosto, pernas e pés de perfil; olhos e tronco de frente. A pintura egípcia é dirigida para a religiosidade, por isso influenciada por um forte sentimento do sagrado. A Lei da Frontalidade representa a intenção de apresentar os deuses em sua totalidade, assim dando mais espaço as partes dos corpo que melhor demonstram a peculiaridade de cada indivíduo. 

         Embora figurativa, a essência da pintura egípcia é abstrata, pois apesar de representar frequentemente objetos do mundo exterior, a sensação visual da realidade é deformada pelos conceitos e sentimentos religiosos. A pintura egípcia foi sintética, não usavam gradações de luz e sombra para transmitir a ilusão de volume  e não desenvolveram regras científicas sobre perspectiva para comunicar espaço ou profundidade

         O povo egípcio foi o inventor da técnica de afresco. Nessa técnica, a pintura é feita sobre um muro, previamente preparado com areia e cal, enquanto o reboco ainda está fresco. Isso permite que quando o reboco seque, a pintura tenha uma longa durabilidade. Além disso, os egípcios foram os primeiros a estilizar as flores. 

Pintura Grega

         Como sabemos, o estudo da arte grega é dividido é três períodos: arcaico, clássico e helenístico. Infelizmente, não restaram pinturas gregas. Sendo assim, a conhecemos indiretamente, por meio de outras formas de arte (vasos, escultura, escritos) e principalmente pela influência que a arte grega exerceu nos romanos.

         No período arcaico, as pinturas eram feitas principalmente em murais, destinada a observação coletiva. Era geométrica, esquemática e simples. Usavam a técnica afresco.
         Já no período clássico, a pintura passa para o realismo figurativo e aparecem os ideais matemáticos da beleza e da forma.
         Entra em cena o uso do cavalete e assim a contemplação dos quadros ganha um caráter mais individual e a pintura torna-se comerciável

O Diadúmeno - atribuído a Fídias - exemplo do estilo clássico.


         No período helenístico, a arte grega se expande, levada pelos invasores romanos. Ganha contornos dramáticos e pitorescos e usa o claro-escuro. É aqui que são criadas as primeiras regras científicas (baseadas em observação empírica) sobre perspectiva.

Estátua do período Helenístico - Lacoonte e seus filhos - atribuída a Agesandro, Atenodoro e Polidoro - Atualmente no museu do Vaticano 

Pintura Romana

Afresco da Vila dos Mistérios em Pompéia feita por volta de 60-70 a.C.

         Assim como o povo romano, a pintura romana foi dotada de um senso prático, utilitarista e político. Dos povos que conquistou, recebeu maior influência dos gregos, principalmente das fases clássicas e helenística. Acentuou a finalidade decorativa e o caráter realista.


Pintura Primitiva Cristã

Inscrição em catacumba - o peixe era usado para representar Cristo

         Como o nome sugere, esse estilo de pintura é dirigido a representações religiosas. Inicialmente foi ora abstrata, ora figurativa, altamente simbólica, representando episódios bíblicos e motivos alegóricos. Era feita em catacumbas e em túmulos. Em 313, Constantino torna a religião cristã oficial no Império Romano. Dessa forma, o cristianismo chega as elites e a pintura cristã recebe a influência grega. A partir de então, a arte cristã se divide em duas vertentes: bizantina e românica.

Pintura Bizantina  


        Ramo oriental da arte cristã. Marcada pelo uso de murais, mosaicos e dos íconos. Os íconos foram quadros pintados à têmpera ou encáustica, incrustados com pedras e elementos preciosos. A técnica têmpera consiste em dissolver as tintas em um adstringente, como cola ou caseína de ovo, tendo em vista alcançar maior aderência. A encáustica por sua vez, consiste em dissolver as tintas em cera quente, para que adquiram um maior brilho ao secar.
        Atribuíam grande importância à pintura logo que a consideravam como uma forma poderosa de levar os ensinamentos cristãos aos analfabetos. Por isso, possuíam severas leis sobre o estilo. Seguiam, por exemplo, a Lei da Frontalidade
        A pintura bizantina dura praticamente mil anos, até a queda do Império de Bizâncio, que foi tomado pelos turcos em 1453. Influenciou a arte na Ásia Menor, Grécia, África do Norte, Rússia e nos Balcãs.   

Pintura Românica


        Ramo ocidental da pintura cristã. Recebeu esse nome por ter surgido entre os povos de língua latina: italianos, franceses, espanhóis e portugueses. Possui caráter expressivo e é fortemente deformada por sentimentos religiosos. A técnica é rudimentar, sem uso de perspectiva ou claro-escuro e com a presença de um colorido vivaz. Era feita em afrescos nas igrejas. No ano de 1200, adquire novas formas e técnicas que darão origem a pintura gótica.

Pintura Gótica

        Libertando-se da influência bizantina e das miniaturas medievais, de 1200 a 1400, a pintura gótica começa a emergir ao lado da manufatura e do mercantilismo.  Anuncia a renascença e a volta gradual a observação da natureza e ao realismo, mas ainda é de caráter simbólico. Entre 1400 e 1500 ocorre a fase pré-renascentista, na qual atuam pintores como Giotto (1266-1336) e Masaccio (1401-1428). 

O Casamento da Virgem, afresco de Giotto, 1305.

        Nessa fase, surge o aperfeiçoamento da pintura à óleo, na qual as tintas são dissolvidas no óleo de linhaça. Esse feito é atribuído aos Irmãos Van Eyck (Hubert e Jean, 1390-1441) e garantiu uma maior conservação e segurança técnica.

Adoração do Cordeiro Místico - Hubert Van Eyck - cerca de 1366-1426


A referência utilizada nessa postagem foi o livro Como entender a pintura moderna de Carlos Cavalcanti (1909-1974). Tenho em mãos a quarta edição, lançada pela Editora Rio em 1978.

Sobre o autor: Cavalcanti foi professor de História da Arte no Instituo de Belas-Artes da Guanabara (1950). Foi membro da Associação Internacional dos Críticos de Arte, Seção Brasileira, assim como de outras instituições artísticas renomadas. Participou de programas de rádio e televisão sendo um dos pioneiros no desenvolvimento de cursos sobre artes plásticas para essas mídias.

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