Como ler literatura - Terry Eagleton - I

 




     No breve prefácio que inicia obra (seção onde geralmente os autores respondem de antemão a indagações que imaginam que os leitores farão, como "para que serve este livro?"), Eagleton declara: a intenção é oferecer ao leitor instrumentos básicos do ofício crítico, e também mostrar que essa crítica pode ser divertida. 
    
    Continuando suas suposições acerca das indagações dos leitores, Eagleton se defende da ausência de suas posições políticas no livro, afirmando que não é possível tecer análises de dimensão política sobre uma obra sem antes ter alguma sensibilidade a sua linguagem; e é essa sensibilidade que o autor procurará despertar no leitor ao longo do livro. 

    Ou seja, trata-se de um trabalho introdutório e que busca apresentar conceitos fundamentais a tecer debates teóricos mais profundos, que considerem análises marxistas ou sociológicas. Mas não por isso, menos interessante, como vamos acompanhar.


   No primeiro capítulo, Inícios, Eagleton começa trazendo como exemplo uma conversa informal de colegas sobre uma obra para apresentar o que considera ser o erro mais comum nas análises: focar no que está sendo dito e não em como está sendo dito. Em outras palavras, remetendo ao formalismo russo, o autor aponta para a literariedade da obra como um aspecto essencial da sua interpretação. 

    Ou seja, devemos encarar uma obra literária conscientes de seu caráter retórico, que busca jogar com nosso discernimento através dos recursos inerentes a sua forma: gramática, tom, textura, ritmo, estrutura narrativa, ambiguidade, pontuação, entre outros. Tudo que está ali tem um motivo, uma função, estando o autor consciente disso ou não. 

    Na interpretação do texto literário, a forma é inseparável do conteúdo, pois a linguagem não é um mero veículo para uma informação, mas sim a matéria com a qual será criada a realidade da obra. Devemos examinar essa matéria para perceber como a forma se relaciona com o conteúdo de modo a criar a ilusão que nos envolve. Isso não significa que a forma e o conteúdo devam estar sempre em harmonia. A situação é exemplificada pelo autor com a obra “Revolução dos bichos” de George Orwell, em que a forma fábula, normalmente usada para histórias mais simples, infantis, recebe como conteúdo um tema complexo como a crítica à URSS. Nesse caso, essa tensão entre forma e conteúdo ajuda a compor um clima de absurdo, que colabora para o significado da obra, e o seu impacto.

    Mas essa necessidade de considerar a forma, a literariedade do texto, para poder interpretá-lo adequadamente significaria que existe uma forma de interpretação errada e outra correta? Seria possível chegar à única interpretação verdadeira, ou apontar uma interpretação que seria mais válida que outras? Acredito que o autor está nos dizendo que deveríamos reformular essas questões, de modo a considerar a complexidade da ação interpretativa e também do próprio texto literário.

    Dito de outra forma, devemos abandonar a simplificação, ir além do que seria errado ou correto, e da ideia de uma interpretação única, para contemplar a existência de múltiplas interpretações possíveis, em diferentes contextos, épocas, em diálogos com variados saberes. Essas leituras podem ser mais ou menos interessantes na medida em que apresentem pontos de vista originais que dialogam com a complexidade da obra e do processo interpretativo. Portanto, análises mais ricas são capazes de explorar as várias camadas de significados possíveis em uma obra literária, mas sempre tecendo conjecturas com um bom embasamento.

    Ressaltando este ponto, Eagleton chama a atenção para a necessidade de não realizarmos uma leitura ingênua, na qual o leitor presume como verdadeiro ou real, dentro do contexto da própria obra, os fatos apresentados no texto. Essa abordagem não considerara que a manipulação do ponto de vista e da noção de verdade é uma parte essencial da estrutura do texto literário. Isso ficaria evidente especialmente quando a estrutura narrativa da obra não é tradicional, o que pode dificultar essa análise ao apresentar vários narradores, narradores não confiáveis, versões conflitantes, ou uma cronologia truncada, incitando o leitor a questionar as fronteiras entre verdade e ficção, a encarar o caráter subjetivo inerente a sua própria leitura da obra, logo que irá ter que se contentar com a versão da realidade que puder construir com o material dado.

    Continuando o primeiro capítulo, o autor apresenta a análise de diversos trechos iniciais de diferentes obras a título de um exercício, que possa ilustrar esse processo para o leitor. Trazendo a tona mais algumas características interessantes dos textos literários, que muitas vezes já estão presentes no início da obra e trazem desdobramentos relevantes para sua análise, Eagleton ressalta o paradoxo, a ironia, a surpresa, o mistério, o absurdo, a justaposição do comum e do desconhecido, bem como a dramaticidade que a sintaxe e a métrica podem adicionar ao texto. Também a textura sonora, que pode colaborar para a integração da linguagem com aquilo de que se fala. 

    Mencionando “Uma passagem para a Índia”, ressalta como a primeira frase pode atuar como uma miniatura do romance, ao representar suas características essenciais. Nesse caso, destaca-se a ambiguidade e a ausência de uma verdade única que irão permear a obra, e que também são características dos romances modernos. Eagleton aponta que a ambiguidade pode ser sugerida tanto com o mistério associado a poucas informações fornecidas pelo autor, quanto com descrições excessivamente detalhistas, em que mais informações criam mais espaço para divergências. 

    A importância da primeira frase é reforçada pelo autor com o exemplo dos contos de fada  e também dos textos míticos ou religiosos. Eagleton mostra que as primeiras palavras do texto podem já indicar seu caráter sagrado/mitológico, como “No princípio” ou “Era uma vez”, remetendo que a história se passa em um tempo paralelo, distante, eterno, e diferente do nosso. Essa passagem ressalta como o texto sempre está em diálogo com a bagagem cultural dos leitores, pois ao nos depararmos com esse tipo de abertura, por estarmos imersos no contexto associado a ela, tendemos a ficar menos inclinados a questionar certos aspectos da história.


    Em suma, no primeiro capítulo o autor demonstra a importância de atentarmos para o aspecto formal do texto. Uma análise atenta do início das obras pode nos dizer muito sobre todo o seu desenvolvimento e mesmo suas características essenciais porque mesmo um pequeno fragmento pode expressar características formais que tem muito a dizer. No início da obra, como leitores, ainda temos pouco do conteúdo, mas já podemos nos deparar com toda a potência da forma.

Comentários