No segundo capítulo, Personagem, o autor começa destacando que a falta de compreensão da ficcionalidade dos personagens é outro erro comum que pode empobrecer uma análise. O autor nos lembra de que o texto é uma configuração de signos sem vida própria, e que o personagem só existe enquanto estamos lendo.
Eagleton ilustra essa afirmação ao apresentar as origens da palavra character, oriunda do grego antigo, e que significava um sino que imprime um timbre específico. Com o tempo essa palavra ganhou o significado de marca pessoal, um sinal que representava um indivíduo; o que depois evoluiu para a ideia de caráter, ou seja a própria essência do individuo. Esse movimento ilustra a crescente ênfase da cultura ocidental na individualidade. Ademais, esse seria um exemplo de uma palavra em forma de sinédoque, figura de linguagem na qual a parte representa o todo.
A palavra character em inglês se refere a personagem, mas também ao caractere, ou seja, ao próprio signo linguístico, a letra impressa, da qual o personagem emerge e que é a sua verdadeira natureza. Além disso, o termo pode ser usado para representar alguém que é excêntrico, conhecido como “uma figura” ou “a character”, cuja personalidade vive na tênue linha entre o fascinante e o aberrante, entre a prisão no próprio ego e a independência ou autonomia de espírito perante a sociedade.
Reforçando que a comunicação genuína é baseada em critérios comuns, Eagleton aponta que os seres humanos não são essencialmente diferentes, pois se fossem seriam imprevisíveis, e a sociologia não faria sentido. Assim, se os personagem não fosse também tipos, seriam incompreensíveis. Diferenciando tipos de estereótipos, o autor aponta que enquanto o segundo reduz as pessoas a categoriais gerais, o primeiro deixa espaço para individualidades, fornecendo um contexto maior para interpretá-las. Ou seja, “uma figura literária totalmente original escaparia da rede de linguagem, deixando-nos sem nada a dizer. (...) Só podemos identificar objetos na linguagem, e a linguagem é geral por natureza”.
Em seguida o autor aborda a relação entre como os personagens são tratados no texto, e a noção de individualidade ou de autoria de um determinado contexto cultural. Para Aristóteles, o desenrolar da trama era mais interessante do que os personagens, que atuavam mais como um suporte auxiliar. Essa postura está associada ao pensamento da Antiguidade que compreendia o indivíduo como um fruto das suas relações sociais (parentesco, história, presença na esfera pública). Assim como não fazia muito fazia sentido o indivíduo ser considerado isoladamente, tampouco o personagem era autônomo. O autor aponta que os romances realistas também apresentavam esse emaranhado do personagem ao contexto, sendo “formados por forças sociais e históricas maiores do que eles, moldados por processos que somente às vezes percebem”.
Ao examinar as técnicas de montagem do personagem, o autor apresenta algumas questões:
“será uma figura literária específica apresentada simplesmente como um tipo ou um símbolo, ou possui uma sutil psicologização? É tratado a partir de dentro ou visto da perspectiva dos outros personagens? É coerente ou contraditório, não muda ou evolui, tem contornos claros ou indistintos? Os personagens são vistos globalmente ou ficam reduzidos às funções do enredo? São definidos por meio de suas ações e relações ou assomam como consciências desencarnadas? Nós os sentimos como presenças físicas vívidas ou essencialmente verbais, prontamente captáveis ou cheios de recônditos secretos?”
Abordando como os modernistas buscaram questionar o que se entendia por personagem, mostra que a coerência do personagem era vista como uma espécie de prisão imposta socialmente, e que o personagem é na verdade moldado por forças inconscientes e incontroláveis.
Em resumo, este capítulo investiga o conceito de personagem (character) a partir de reflexões sobre sua etimologia, aprofundando-se em sua evolução semântica ao longo do tempo. Em paralelo, explora a interação entre personagem e narrativa e como as dinâmicas entre o indivíduo e a sociedade da época moldavam essa relação.
Finalizando, o autor ressalta como o poder de despertar empatia (sentir com) e simpatia (sentir por) a partir da relação que estabelecemos com os personagens colabora para recriarmos imagens que ampliam nossa percepção da experiência humana e aprofundam nossa afinidade com a humanidade.
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