Como ler literatura - Terry Eagleton - III

No terceiro capítulo, Narrativa, Eagleton inicia falando sobre a relação do leitor com o narrador do texto. Ele aponta que na experiência de leitura de um texto literário, é comum adotarmos, enquanto leitores, uma relação de subordinação na qual nos curvamos perante a autoridade das palavras de um narrador onisciente: acreditamos em tudo o que ele nos diz. Contudo, Eagleton lembra que essa crença é um fazer de conta, ou seja, o narrador na verdade pede que nós finjamos que acreditamos por um momento em suas palavras.



Eagleton caracteriza os narradores oniscientes como vozes sem corpo que agem como se fossem a própria mente da obra. No entanto, o autor nos lembra que também existem os narradores não confiáveis, que não se alinham exatamente ao que ocorre na obra, aqueles que podem fingir saber ou não saber de algo, que podem nos confundir e nos manipular. Um ótimo exemplo trazido à tona pelo autor é um romance de Agatha Christie em que o narrador é o próprio assassino.

Além do que, o autor ressalta, não precisamos tomar as palavras do narrador como verdadeiras nem mesmo no caso dos narradores oniscientes. Podemos desconfiar deles, explorar pontos cegos e contradições, mesmo que suas palavras sejam a única fonte de informação sobre a realidade daquela obra. Eagleton também demonstra que pode haver casos de incongruências entre o que uma obre mostra ou descreve e a narração, e casos em que há múltiplos narradores.

Abordando brevemente o final de uma obra, o autor aponta a tendência no modernismo de criar finais inquietantes, perturbadores, em aberto. Em contrapartida, os romances vitorianos costumam dar finais felizes aos seus protagonistas, o que estaria associado a uma concepção do papel da arte como uma fonte de consolo e revitalização. Esse tipo de final, Eagleton ressalta, é uma fantasia no sentido freaudiano, como “uma retificação de uma realidade insatisfatória”.

Continuando o comentário psicanalítico, Eagleton esboça uma associação entre a motivação de ler um livro até o fim e a pulsão de morte. Essa curiosidade sobre o que ocorre ao final de uma história, sobre qual seria a verdade finalmente descoberta, exerce um certo fascínio, que se liga às características ambíguas do desejo humano, que busca por respostas definitivas, mas alcançá-las é como uma morte da história, e também de suas possibilidades, do prazer da imaginação e da antecipação. A história só pode existir se a solução for temporariamente retida até o fim. Uma espécie de adiamento do prazer que é em si mesma um deleite pela ansiedade de não saber. A dualidade entre o desejo de viver (prolongar a experiência da leitura) e o desejo de encerramento (saber o final).

Em seguida, o autor inicia um comentário sobre a estrutura de uma narrativa. Ele aponta que, em geral, é necessária a perturbação da ordem para dar início a uma narrativa. Nos romances realistas, destaca o autor, é muito comum essa abordagem da narrativa como uma espécie de estratégia para restaurar a ordem das coisas, o que refletiria uma visão de mundo voltada para valores iluministas, de razão e progresso da humanidade. No entanto, essa concepção entra em crise com as grandes guerras do século XX.

Essa abordagem de narrativa, que se dirige a um final otimista, contrastaria com a de obras modernistas e pós-modernistas que preferem mais desnudar problemas a oferecer soluções. Aqui o autor discute como os modernistas questionaram a própria ideia de narrativa, apontando como ela sugeriria uma ideia de mundo perfeito, de sequencia ordeira das coisas, quando a realidade é muito mais caótica e indeterminada: “Sob esse ponto de vista, a realidade, mais do que um desenvolvimento lógico, é uma rede emaranhada na qual todos os componentes estão intrincadamente interligados. Uma rede dessa não tem centro e não se apoia em base alguma”. Ou seja, “não existiria uma grande narrativa geral, mas uma miríade de mininarrativas, cada qual podendo ter sua parte de verdade”.

Como complementa Eagleton, “narrar é falsificar”, e da perspectiva moderna, uma obra autêntica tem consciência de sua falsificação, e busca contar a história levando isso em conta, o que fez da ironia um tom onipresente nas narrativas modernas. Esse contexto abriu margem para novos rumos em termos de narrativa, experimentações buscando expandir os limites da linguagem. Assim surge a tendência do afastamento da narrativa linear, e da exploração de narrativas cíclicas, em que sempre se tenta capturar uma verdade fugidia.

Ao final, o autor aborda a diferença entre narrativa e enredo. Para ilustrar essa diferenciação, utiliza como exemplo os livros de Agatha Cristie, em que a ação (enredo) é o elemento primordial, de modo que outros aspectos associados à narrativa são deixados de lado, como a ambientação, o diálogo, a atmosfera, o simbolismo, a descrição, a reflexão, e a caracterização aprofundada dos personagens. O enredo portanto, faz parte da narrativa sendo algo como sua dinâmica interna. Ao representar o desenvolvimento da ação principal, o enredo costuma ser o que resumimos quando alguém nos pergunta sobre alguma história.

Dessa forma, observamos que neste capitulo o autor buscou discutir aspectos importantes da narrativa, como a relação entre o leitor e o narrador; os direcionamentos dados à narrativa nas obras a partir de diferentes períodos literários, e como esses períodos se relacionavam com determinadas concepções da sociedade e do mundo.


 

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