O conceito weberiano de racionalismo e sua relação com a modernidade
RESUMO
Nossa proposta é analisar o conceito de racionalismo em suas linhas gerais, entendendo a sociologia da religião weberiana como um excelente meio para apreender a articulação de tal conceito ao sistema de pensamento do autor. Desse modo buscamos demonstrar que o conceito de racionalismo é um bom ponto de partida para compreender a modernidade, pois permite uma análise aprofundada das mudanças no sentido subjetivo compartilhado que a caracterizam.
INTRODUÇÃO
Weber é um pensador essencial para a
compreensão da modernidade. Seu conceito de racionalismo, que desenvolveu por
meio de suas pesquisas de história comparada e sociologia da religião,
tornou-se hoje um clássico do pensamento científico social, reconhecido pela
sua refinada articulação entre diferentes esferas da ação social.
Influenciado pela conjuntura
histórica da qual era contemporâneo, Weber era leitor de Kant, Nietzsche e
Goethe, sempre discernindo entre os autores aquilo que considerava objetivo à
realidade social. Desse modo, a influência desses pensadores é sentida pelo
leitor de Weber à medida que ele adentra no universo de suas complexas
construções epistemológicas. O cuidado com a precisão da linguagem e com a
definição dos conceitos faz com que a leitura de Weber seja um esforço
intelectual ativo em penetrar o sentido específico atribuído a cada conceito,
para então compreendê-lo articulado a um sistema.
Nesse sentido, nos propomos a analisar os aspectos gerais do conceito de
racionalismo desenvolvido por Weber. Para empreender tal análise, temos em
vista delimitar primeiramente, algumas características metodológicas do autor
que possibilitam contextualizar a concepção do conceito. Em seguida o foco
converge para uma visão mais empírica, o racionalismo ocidental. Finalizando,
examinaremos as linhas gerais do conceito de desencantamento do mundo, paralelo
e essencial ao entendimento do conceito de racionalismo. Para concluir,
realizaremos uma discussão sobre o sentido do processo de racionalização.
1 ASPECTOS GERAIS DO CONCEITO DE RACIONALISMO
1.1
Aspectos metodológicos
O conceito de
racionalismo é uma das chaves interpretativas usadas por Weber para compreender
a ação social. Estreitamente ligado a outros conceitos chave, como o de
burocratização e desencantamento do mundo, o conceito de racionalismo é
essencial para compreensão da obra de Weber. Como afirma GIGANTE (2013, p.140),
a Sociologia da Religião weberiana é um ponto onde todos esses conceitos se
articulam. Assim, compreender o
funcionamento do conceito de racionalismo por meio da Sociologia da Religião é
uma ótima oportunidade de apreender não somente o esqueleto teórico do
conceito, mas suas implicações empíricas, sua capacidade de articulação a
outros conceitos, e portanto a sua validade metodológica.
O
modo como o autor relaciona o racionalismo específico de cada cultura a seus
sistemas religiosos predominantes demonstra as ligações existentes entre as
expectativas criadas pelo sujeito, as motivações de suas ações, e as
consequências econômicas dessas motivações. Ou seja, a análise sociológica de
Weber demonstra que é possível compreender de modo racional processos sociais
complexos como a religião, a partir de uma visão pautada pela compreensão
interpretativa da ação social mediada pelo tipo ideal da ação subjetiva
racional.
Como
para Weber as regras sociais existem sustentadas pelas ações dos sujeitos, para
compreender a ação social, aquela cujo sentido é orientado pela ação do outro,
devemos apreender o modo como o sujeito organiza suas expectativas. Para o
autor, existem regularidades e conexões no decurso do comportamento humano, de
modo que podemos nos basear nessas regularidades para realizarmos nossa
interpretação. No entanto, a possibilidade de que muitas ações idênticas sejam
motivadas por razões completamente diversas leva o autor a definir um padrão
interpretativo da ação social subjetiva. Portanto, para que a interpretação
possua evidência máxima é necessário baseá-la no que Weber define como tipo
ideal da ação racional com relação a fins.
(…) é evidente,
certamente, que o comportamento que é interpretável racionalmente, se apresenta
no que diz respeito à análise sociológica das conexões compreensíveis, como o
“tipo ideal” mais apropriado: tanto a sociologia como a História fazem
interpretações sobretudo de caráter pragmático a partir das conexões
racionalmente apreensíveis de uma ação. (WEBER, Max. 2001 p.315)
O
tipo ideal é um recurso metodológico. No caso da ação racional com relação a
fins, ele se define como a representação do decurso da ação estritamente
racional, sem influência de outros fatores. Ao compararmos uma ação social ao
que se tem como o padrão subjetivo racional humano, conseguimos a oportunidade
de reconstruir o decurso das expectativas e motivações que culminaram na ação.
Em síntese, partimos do ponto de que ação social é compreensível a partir do
prisma individual e racional: por meio da mediação de um padrão subjetivo
podemos interpretar a ação buscando reconstruir-lhe as expectativas e metas.
Weber
ressalta que os tipos ideais não pretendem reduzir todo comportamento social à
ação estritamente racional ou a padrões engessados. Como afirma a citação
acima; pressupondo a atitude teleológica como característica humana, que
entendemos como a capacidade de prever a consequência de seus atos e calcular
os meios considerados subjetivamente corretos e inequívocos para a conclusão da
ação, é evidente que o tipo ideal da ação racional referente a fins é o melhor
recurso metodológico. A articulação dos tipos ideais ás ações sociais demonstra
que podemos situá-las dentro de um sistema de sentido fornecido pela cultura e
pela conjuntura histórica. Nesse processo de reconstrução da expectativa
subjetiva conseguimos identificar o modo como o sujeito se orienta através dos
sistemas culturais, bem como os componentes irracionais que interferiram na
ação, mediante a comparação com o decurso estritamente racional dado pelo tipo
ideal. Para Weber, também os componentes irracionais da ação possuem decurso e
consequências típicos. Contudo, certos processos como a experiência mística ou
extática são menos acessíveis à sociologia compreensiva, devido o fato de que
carecem de regularidades comprovadas. Portanto podemos interpretar a ação
social, obtendo evidência e compreendendo quais fatores influenciaram na
construção da expectativa e da motivação, assim como o modo como suas metas se
localizam dentro do cenário cultural, social e de classes tanto quanto nos é
acessível a estrutura racional e regular do sentido dado a essa ação pelo
sujeito.
Entendemos
que o ponto metodológico central é compreender a ação social pelo prisma de
sentidos que é construído pelo indivíduo em relação com o cenário
histórico-cultural. Logo que temos como base o pressuposto da existência de
regularidades comportamentais que possibilitam a compreensão do sentido das
ações sociais, podemos compreender que cada cultura possui uma intencionalidade
específica na regularidade da ação social dos sujeitos que dela fazem parte.
Desse modo nos aproximamos da definição de racionalismo:
Racionalismo
significa a forma, culturalmente singular, como uma civilização específica, e
por extensão também os indivíduos que constituem sua maneira de pensar e agir a
partir desses modelos culturais, interpretam o mundo. (…) Isso significa, antes
de tudo, que não existe definição universal possível acerca do que seja
“racional” ou do que seja “racionalidade”. (SOUZA, Jesse, 2006, p.8)
Souza
nos indica a impossibilidade de definir “racional” ou “racionalidade” de modo
universal. Isso se baseia no fato de que o modo como cada sociedade organiza o
sentido subjetivamente compartilhado é singular. Portanto, se entendemos
“racional” como a definição da ação coerente à determinada “racionalidade”,
logo percebemos que a definição desses dois termos está submetida à
especificidade do racionalismo do qual fazem parte, ou seja, do sistema de
sentido peculiar àquela sociedade. Por meio do conceito de racionalismo Weber
articula aspectos aparentemente distantes dentro da lógica uma sociedade como
as éticas metafísicas religiosas e as relações materiais, assim ele demonstra
que os sentidos subjetivamente compartilhados funcionam como um sistema.
1.2 O racionalismo ocidental
O
racionalismo peculiar ao Ocidente foi o que mais obteve a atenção de Weber.
Preocupado em entender a modernidade e o cenário histórico do qual era
contemporâneo, Weber atentou para o fato de que os sentidos subjetivamente
compartilhados que eram necessários para se viver em um sistema capitalista,
que então se encontrava em franca expansão, não eram encontrados na maioria dos
sistemas culturais. Para viver em uma sociedade capitalista, assim como em
qualquer sociedade, o sujeito necessita organizar sua concepção de mundo de
acordo com certas categorias. A negligência a essas categorias costuma implicar
em coerção social, ostracismo ou sanções legais. Para Weber, a característica
central do racionalismo ocidental, peculiar ao capitalismo, é interpretar o
mundo de maneira “desmagicizada”.
Aqui
ressaltamos a importância da Sociologia da religião weberiana. Foi por meio da
comparação entre o contexto histórico-cultural do Oriente com o Ocidente, que
Weber chegou ao contraste que lhe permitiu definir o racionalismo ocidental.
Entendendo as religiões como sistemas de regulamentação da vida, Weber buscou
estudar as implicações práticas das prescrições éticas religiosas.
Interpretando as consequências econômicas das ações sociais dos sujeitos em
relação ao sistema religioso que dá a tônica ao sentido subjetivamente
compartilhado por uma sociedade, Weber observou que:
Magia significa
estereotipagem da técnica e da gestão econômica. Quando se pretendeu na China a
construção de ferrovias e fábricas, entrou-se em conflito com a geomancia. Esta
exigia que, na implantação das construções, era preciso respeitar as montanhas,
florestas, rios e túmulos. Caso contrário, conturbar-se-ia a paz dos espíritos.
(WEBER, Max. 2006. p.118)
Desse modo observou-se que a
expansão do sistema capitalista pelos países do mundo só seria possível com
certa adaptação dos sistemas culturais desses países ao racionalismo ocidental.
Weber entende que a ética econômica das religiões, “os impulsos práticos de ação que se encontram nos contextos psicológicos e pragmáticos das religiões” (WEBER, Max. 1982. p.189), jamais influencia por completo as ações dos sujeitos. De acordo com a metodologia de Weber, as esferas sociais possuem autonomia em relação uma as outras enquanto típicas ideais, pois possuem sua lógica própria. Portanto, para delimitar a influência específica do sistema religioso no agir econômico de determinada sociedade, Weber analisa o modo como a cada classe dessa sociedade lida com a religiosidade. Desse modo ele atestou o fato de que tanto as camadas mais influentes economicamente quanto as de baixa influência se relacionavam com o sistema religioso de modo a justificar a sua posição social:
Se a expressão geral “fortuna” cobrir todo o bem representado pelas honras, poder, posses e prazer, será então a fórmula mais geral a serviço da legitimação, que a religião teve para realizar os interesses externos e íntimos dos homens dominantes, os proprietários, os vitoriosos e os sadios. Em suma, a religião proporciona a teodicéia da boa fortuna para os que são afortunados. (…) Em contraste, a forma pela qual essa avaliação negativa do sofrimento levou a sua glorificação é mais complicada. (WEBER, Max. 1982 . p.192, grifo nosso)
Delimitando novamente
a autonomia metodológica das esferas sociais e buscando se aproximar da riqueza
das determinações múltiplas da realidade social, Weber afirma que por mais
incisivas que sejam as influências sociais, econômicas e políticas sobre uma ética
religiosa, ela é, em primeiro lugar, determinada pelo seu conteúdo próprio: sua
anunciação e promessa. Essas anunciações e promessas são reinterpretadas pelas
gerações de acordo com suas necessidades. Na citação acima, vemos como a
religiosidade é interpretada de diferentes maneiras pelo prisma de sujeitos de
diferentes classes sociais. Ambos buscam justificação: enquanto o indivíduo de
posses abundantes necessita da justificação do seu bem-estar, o pobre necessita
da promessa de esperança em dias melhores, da justificação dos seus pesares. Os
símbolos religiosos possuem essa característica, agregam em torno si os mais
diferentes interesses, são uma matriz interpretativa para a realidade que
permite os mais diversos pontos de partida.
Porquanto, o que interessa
a Weber é o modo como o sujeito dá sentido a sua vida por meio da estrutura de
uma religião e em que medida a influência religiosa determina seu agir
econômico. Sintetizando, Weber observa as matizes que compõe o racionalismo, as
influências marcantes existentes no sentido subjetivamente compartilhado entre
as esferas sociais e suas consequências práticas advindas, as quais são
observáveis de forma empírica principalmente por meio do aspecto econômico e
político.
É nessa intenção que Weber escreve A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, uma de suas obras mais conhecidas. Nela, Weber busca analisar a relação entre as religiões protestantes e a prática econômica capitalista. Ele afirma em conclusão, que a ética econômica do protestantismo se combinou com as aspirações econômicas capitalistas daquele momento histórico de modo a embasá-las. Com a introdução, feita por Lutero, do conceito de vocação interpretado como profissão, passa-se a associar o sucesso profissional às aspirações religiosas:
Um dos elementos
componentes do espírito capitalista [moderno], e não só deste, mas da própria
cultura moderna: a conduta de vida racional fundada na ideia de profissão como
vocação, nasceu – como queria demonstrar esta exposição - do espírito da ascese
cristã. (...) Pois a ascese, ao se transferir das celas dos mosteiros para a
vida profissional, passou a dominar a moralidade intramundana e assim
contribuiu [com sua parte] para edificar esse poderoso cosmos da ordem
econômica moderna ligado aos pressupostos técnicos e econômicos da produção
pela máquina (...) (WEBER, Max. 2007. p.165)
Segundo Weber, o modo como os protestantes interpretaram a ideia de deus, inacessível e insondável, fez com que as suas aspirações religiosas de salvação tivessem como foco a vida intramundana, assim interferindo com mais força na esfera econômica. A ascese protestante que propunha uma vida de dedicação á comunidade por meio da profissão, pautada na vida econômica racional, favoreceu a acumulação necessária para investimentos de constante expansão das empresas. As características do racionalismo ocidental se firmaram assim como o “empreendimento racional permanente, a contabilidade racional, a técnica racional, mas tampouco foram esses fatores por si sós; mostrou-se necessário o fator adicional da mentalidade racional, a racionalização da conduta de vida, o ethos econômico racional” (WEBER, Max. 2006. p.110).
O que Weber ressalta é que, embora o Ocidente possuísse condições adequadas para o desenvolvimento do capitalismo, como o acúmulo de dinheiro, técnicas racionais econômicas e um aparato político racionalizado, a consolidação e expansão do sistema só foram possíveis graças à introdução do elemento da racionalização da conduta de vida. O autor mostra que em conjunturas históricas de outros países se criaram condições parecidas para o florescimento de um sistema capitalista, no entanto, a ética econômica dos indivíduos não permitiu esse pleno desenvolvimento. O contraste com o Oriente define melhor como essa tendência compartilhada subjetivamente é peculiar ao racionalismo ocidental. Vimos em uma das citações deste texto que na China os empreendimentos ferroviários eram freados, até certo ponto, graças ao consenso dentro da camada mais influente da sociedade, baseado em crenças religiosas, na geomancia. Ou seja, como afirma SOUZA (2006, p.11) a racionalização religiosa do ocidente permitiu que se criassem as condições para a quebra das relações tradicionais, caracterizadas pelo pensamento mágico, criando as condições simbólicas necessárias para o surgimento da sociedade secular. Percebemos que a clareza metodológica de Weber lhe permitiu observar que a sociedade moderna tem suas bases em uma combinação de pressupostos religiosos metafísicos e ética econômica. Evitando análises simplistas, o autor atentou para o fato de que os sistemas religiosos são as maiores estruturas de coordenação de sentido que precedem a modernidade (e ainda hoje têm papel crucial na dinâmica social), de modo que uma grande mudança no sentido subjetivamente compartilhado de uma sociedade necessita ser analisada em relação não só aos aspectos econômicos e políticos: as estruturas metafísicas tem papel importante no modo como os sujeitos organizam suas expectativas materiais.
1.3
O desencantamento do mundo
Até agora concluímos que a perda da magia como característica de orientação da ação dos sujeitos foi essencial para a constituição do racionalismo moderno. De acordo com Weber, somente com o abandono das concepções mágicas, que estereotipam o agir, é que foi possível introduzir mudanças na condução de vida dos sujeitos. Para definir esse processo de perda da influência das crenças mágicas Weber utiliza o conceito de desencantamento do mundo, que traduzido literalmente do alemão (Entzauberung) figura como “desmagicização”. Para ele a influência da superstição mágica fazia com que houvesse um medo generalizado de novas concepções; nas orientações de caráter mágico o mundo está definido dentro de um sistema fechado e eterno. Somente o processo de abandono dessas concepções mágicas possibilitaria o surgimento da ciência, que pressupõe o poder do homem de dominar a natureza por meio da previsão também como pressupõe a dúvida metódica.
Para
Weber, o judaísmo teve importância decisiva no desenvolvimento da concepção
secular do mundo, porquanto legou para a religião cristã a sua aversão a magia.
O fato de o judaísmo conceber um deus personificado e transcendente, enfático
no aspecto ético, contribuiu nesse ponto. Segundo Weber esse caráter do deus
judeu se formou provavelmente na disputa interna sacerdotal entre devotos do
deus Baal e do deus Jeová. Os jeovistas ganharam a disputa e estigmatizaram o
deus opositor como falso. Como a magia era uma característica forte de Baal,
acabou por acompanhar a entidade em sua estigmatização. O cristianismo herda a
hostilidade judaica à magia, que mais tarde seria transmitida ao
protestantismo.
Segundo essas características específicas do processo de desencantamento, Weber afirma que “a fim de romper com a magia e impor a racionalidade da condução de vida, em todos os tempos apenas existiu um meio: grandes profecias racionais” (2006, p.118). No entanto, adverte que é necessária uma legitimação do profeta para a eficácia da profecia. Os profetas judaicos e cristãos conseguiram suplantar a magia graças a sua luta pela supremacia sobre a aristocracia intelectual, que lhe permitiu nesse processo sufocar na massa as tendências mágicas. Não foi possível extinguir a magia, mas esse processo tornou-a algo “diabólico” e profano. Nesse ponto Weber nos indica a importância de levar em conta a distinção entre a doutrina oficial proclamada pela Igreja e a sua real influência sobre a vida, ou seja, indica a importância de analisar a influência da ética religiosa no espectro da especificidade de diferentes sujeitos sociais: a religiosidade da massa não é a mesma da das elites religiosas ou comerciais.
Na
religião católica, era pressuposto uma religiosidade diferente para os monges e
outra para a massa. O que culmina em um apaziguamento dos pressupostos éticos
religiosos para a massa. Contudo, esse apaziguamento não significa ruptura.
Porém a conduta que leva a uma vida ascética, que mira o extramundano, regulada
metodicamente e portanto racional, ficava restrita aos mosteiros. Sacramentos
como a confissão serviam para a massa como expiação da culpa de seus pecados,
frutos de uma vida não santa, menos metódica e racional. A Igreja Católica,
dando-lhes a sua misericórdia, já pressupunha que os homens reincidiriam no
pecado, pois que a vida realmente santa era para poucos. Para Weber, a Reforma
rompeu com esse sistema, abolindo a existência de uma “ética dupla” e
proclamando uma única moral para todos:
Os caracteres
rigorosamente religiosos, que até então haviam ingressado nos mosteiros, a
partir daquele momento precisaram desenvolver o mesmo desempenho dentro do
mundo. Para esse ascetismo intramundano, as denominações ascéticas do
protestantismo criaram a ética adequada. (...) Em nenhuma outra religião deu-se
uma organização de tal modo poderosa e inconscientemente sofisticada para a
criação de indivíduos capitalistas (...) (WEBER, Max. 2006. p.123-126)
Logo, constatamos que
o processo de desencantamento do mundo é milenar. Para compreendê-lo Weber
realiza uma minuciosa análise histórica; o fio condutor de seus traços começa
na antiga religião judaica e chega até a modernidade capitalista. O processo
alcança sua maior amplitude quando se manifesta nas premissas éticas do
protestantismo, que elevou o nível de racionalização da vida dos sujeitos ao
inserir a ideia de vocação na lógica social. Conceitualmente, o desencantamento
do mundo é parte essencial da compreensão da modernidade segundo Weber. A
compreensão da conduta de vida racional (fundada na ideia de profissão como
vocação, característica da modernidade e do capitalismo), a qual torna a magia
inócua para ação social, nasce do esforço intelectual em analisar as complexas
relações entre as diferentes esferas da sociedade.
CONCLUSÃO
Por fim, concluímos
que as mudanças que caracterizam a modernidade, das quais a crescente
racionalização da conduta de vida é a mais notável, só foram possíveis graça ao
processo de desencantamento do mundo, o que comprova a eficácia do conceito de
racionalismo em seu poder de análise. Mas nos falta ainda observar o modo como
essa racionalização crescente influiu na construção de sentido dos sujeitos
modernos mais especificamente.
Para Weber, o progresso científico caracteriza o processo de racionalização da conduta de vida. A ciência figura como a nova estrutura na qual os sujeitos buscam significado para suas ações. Contudo, Weber afirma que o conhecimento científico não significa um maior conhecimento sobre a conduta de vida. Em relação aos diferentes tipos de racionalidade, a ciência não obteve nenhum avanço qualitativo no sentido de permitir ao sujeito conhecer as próprias condições de vida. Segundo Weber, esse fato se explica pela crescente mecanização dos procedimentos cotidianos e do trabalho: nós aprendemos a nos orientar pelas máquinas, no entanto não conhecemos seu funcionamento, a não ser que sejamos especialistas no assunto, profissionais. Em oposição, em outras sociedades (que nomeamos como primitivas, porque primeiras) os sujeitos possuem um conhecimento mais avançado nesse ponto:
O selvagem, contudo, sabe perfeitamente como agir para obter o alimento quotidiano e conhece os meios capazes de favorecê-lo em seu propósito. A intelectualização e a racionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente acerca das condições em que vivemos. Significam, antes, que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, bastando que o quiséssemos, provar que não existe, em princípio, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida; em uma palavra, que podemos dominar tudo, por meio da previsão. (WEBER, Max. 2005. p.30)
Nessa citação, observamos o modo como Weber reafirma o desencantamento do mundo como peça essencial na compreensão da modernidade e do conceito de racionalismo. Ele demonstra que na sociedade moderna o homem é mais autoconfiante em relação a sua própria capacidade de interferir no mundo graças às suas limitadas habilidades de previsão, contudo possui menos conhecimento do funcionamento das próprias condições de vida, basta para ele acreditar e se orientar pelas inovações tecnológicas e intelectuais, não sendo necessário realmente conhecê-las.
Dessa
forma, Weber nos coloca a questão: terá o processo de desencantamento do mundo
e racionalização da conduta de vida algum sentido mais profundo, além do
desenvolvimento técnico e prático? Amparado nas obras de Tolstoi, o autor
argumenta que o processo de racionalização e desencantamento criou uma
infinita, e por isso frustrante, busca por sentido. O fato da sociedade moderna
se guiar por uma busca de progresso científico e tecnológico que aponta para um
horizonte infinito faz com que o homem, ao se localizar nesse contexto, perceba
sua finitude e sua incapacidade de se sentir completo de sentido, graças a
incessante proposta de que o sentido sempre é provisório.
Weber nos mostra que nos primórdios de seu desenvolvimento, a ciência carregava as esperanças de ser o instrumento perfeito para dotar a vida de sentido. Como exemplo, o autor nos indica os antigos gregos, como Platão e Sócrates, que ao descobrirem o poder epistemológico do conceito, presumiam que esse pudesse alcançar o verdadeiro ser das coisas. No Renascimento, a experimentação racional surge como complemento aliado ao esforço teórico, amparada pelas pesquisas artísticas de Leonardo da Vinci e seus companheiros. Esses homens, que representam enormes influências no pensamento científico, davam a ciência o sentido de ser o melhor caminho para encontrar a verdadeira natureza das coisas. No entanto, como vimos, a ideia de progresso, carro chefe da ciência, instaurou uma dúvida metódica tamanha, que é impossível ao homem, amparado na mesma, definir um sentido para sua vida. Como argumenta Weber: “Se existem conhecimentos capazes de extirpar, até as raízes, a crença na existência de seja lá o que for que se pareça a uma “significação” do mundo, esses conhecimentos são exatamente os que se traduzem pelas ciências” (2005. p.35). Dessa maneira, o homem moderno tende a se sentir “preso” pela incapacidade da ciência de responder as questões básicas existenciais humanas. Fruto desse desânimo em relação a modernidade, nascem movimentos como o romantismo, contemporâneo a Weber, que acusava o progresso científico de ser o motor de uma irreversível desintegração cultural.
Dessa complexa questão que Weber se propõe a analisar, concluímos que o processo de desencantamento do mundo e racionalização da conduta de vida ainda não está concluído em sua totalidade, e que tende a tornar as relações de sentido mais complexas. As diversas religiões não possuem mais a força simbólica de antes, já que a autoridade e influência das Igrejas, apesar de enormemente significativas para a ação social, se encontram submetidas à ordem racional do Estado. Contudo, os apelos simbólicos ao imaginário continuam a influenciar as práticas de legitimação. Portanto o sujeito necessita de uma nova capacidade de articulação das esferas sociais para interpretar o mundo a partir da modernidade: ele necessita aliar a crença na ciência e na profissão como melhor maneira possível de conduzir a vida à sua busca de sentido, a qual desde sempre, antropologicamente falando, encontra no simbolismo e na religiosidade a sua maior expressão.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
WEBER, Max. A gênese do capitalismo moderno. 2006. Editora Ática.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 2007. Editora Schwarcz ltda.
WEBER, Max.Metodologia das ciências sociais. 2001. Editora Unicamp.
WEBER, Max.A psicologia social das religiões mundiais em Ensaios de sociologia. 1982. Editora LTC.
WEBER, Max.A ciência como vocação em Ciência e Política: duas vocações. 2005. Editora Cultrix.
GIGANTE, Lucas Cid. A Sociologia da religião de Max Weber: santificação da vida dentro de ordens políticas, econômicas e sociais em Estud. Sociol. Araraquara v.18 n.34. 2013


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